MEU TRABALHO DURANTE A INFÂNCIA
Cresci até os dezoito anos na minha querida Sorocaba. Lá residi, e
sob os cuidados de meus pais, fui apreendendo as trilhas da vida, que já não
era , para nós, afortunada. Meu pai era operário, e seu salario era baixo. Minha
mãe era doméstica, e costurava para ajudar na renda doméstica.
Eu fui crescendo nesse contexto. E quando atingi meus treze para
quatorze anos, meu pai me arrumou um emprego com um dos seus amigos feirantes.
Aos domingos, lá pelas quatro horas da madruga, eu me levantava tomava o café
reforçado, feito pelo meu pai, e ia para a casa do patrão feirante, ajudar no
carregamento do caminhão, com os trens da feira (barraca, estrados, caixa de mercadorias,
lonas de cobertura, paus de barraca e outras providências.
Quando eram seis horas da matina estava tudo pronto e arrumado para
iniciarmos as vendas daquela grande feira nas proximidades da Avenida Nogueira
Padilha em Sorocaba e que recebia grande freguesia. E, lá, naquela atividade eu
vendia, fazia troco, embrulhava e atendia os fregueses. Eu gostava do que fazia,
e o fazia com dedicação e boa vontade!
Por volta das 12hs o chefe ordenava, que começássemos ao desmonte do
dispositivo de feira. E eu então, iniciava o empacotamento e embrulhamento das
mercadorias (louças, vidros, armarinhos, equipamentos de cozinha, jogos de
jantar e almoço, jogo de talheres, etc). Eu ia então, embalando cada peça com
jornal e acondicionava-as nas caixas, que depois seriam embarcadas na
carroceria do caminhão! Isso ia até por voltas da 14hs, quando o local ficava limpo
e rumávamos para a operação inversa na casa do patrão. Descíamos as caixas e as
guardávamos nos seus devidos locais para a feira do próximo domingo.
À essa altura, eu me postava ao lado, numa atitude de quem estava
esperando o “pagamento”... O sagrado dinheirinho, que me servia para eu assistir
os jogos do São Bento ou ir a matine no cine Caracante no centro de Sorocaba.
Chegava em casa esfomeado, suado, e degustava aquela suculenta macarronada, e
depois as gigantescas mexericas poncans, servidas pela mama, que caprichava no
meu rango. Meu pai não pedia o que eu havia ganho. Era todo meu para as
despesas daquele domingo (ou no jogo do São Bento ou na matiné).
Ainda nesse mesmo contexto (eu devia estar com 13 para 14 anos), fui
convidado pelo meu tio irmão de mamãe, que vendia armarinhos com a ajuda de
seus sete filhos e meus primos com quem aprendi a atividade de “MASCATEAR”
pelos bairros de Sorocaba. Era de casa em casa. Eu tinha uma mala pequena com
mercadorias, que as expunha para que os fregueses que nos acolhiam, vissem e comprassem.
E, ao final do dia eu retornava para a casa do meu tio, e prestava-lhe contas
do que eu havia negociado bem como o dinheiro auferido com as vendas, e, ele
então, me pagava o que tinha sido combinado.
Bem, o tempo passou rápido eu avançava na idade. E, com os meus
quinze anos, papai e um primo influente, me arranjaram um emprego no Escritório
da Companhia Brasileira de Alumínio – CBA em Mairinque vizinha à Sorocaba. Eu
havia tirado o diploma de “datilógrafo” na Escola Remington e, foi o que me
possibilitou ser admitido.
Comecei então a trabalhar com carteira de menor. Levantava todos os
dias às 04hs com meu pai, que ia também ao seu trabalho, e que ficava próximo à
estação de trem Sorocabana em Sorocaba onde eu embarcava na composição e descia
na estação de Alumínio.
Lá almoçava de marmita, que mamãe me mandava pelos ônibus, que levava
operários para o turno da tarde. Nessa atividade permanecei por dois anos, até
que o serviço militar me chamou aos dezoito.
Bem, dito isso, faria esta reflexão numa paralela aos dias de hoje,
quando a garotada não faz nada. Só come, bebe e dorme, quando não fuma e cheira
drogas, e executa roubos até dos próprios pais, para buscar algum dinheiro ou recurso
nos sustentos de seus vícios. Protegidas pelas “Pastorais do Menor”, que punem
os pais cujos filhos estejam “trabalhando como menores”, mas, permitem que eles
levem suas vidas de vagabundos, e que os proíbem de serem “explorados” com
alguma atividade de trabalho! Isso é uma vergonha!
Na verdade, a garotada está sendo criada sem “responsabilidades ao
trabalho e aos estudos”! Por isso, a mão
de obra atual está defasada. Esse processo já vem de longe, quando chega a
idade do “trampo” a mocidade, não apresenta capacidades de mão de obra.
Faltam-lhe cultura, habilitações e sobretudo a vontade de trabalhar!!!
Jose Alfredo
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